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Prefácio - Padres Casados? 30 questões candentes sobre o celibato do Arturo Cattaneo (organizador)

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Mauro Piacenza. Prefácio do Padres Casados? 30 questões candentes sobre o celibato do Arturo Cattaneo (organizador). Brasília, Edições CNBB. 2011, 156 páginas.

 

Padres Casados? 30 questões candentes sobre o celibato
Prefácio

 

Um dos critérios para avaliar a consciência histórica e defé de determinada época é constituído pela capacidade de distinguirentre o verdadeiro e o falso, entre o bem e o mal, entreo que é dom e o que não é. O celibato eclesiástico, apostolicavivendi forma, é enumerado exatamente entre os bens maiorese mais fortemente portadores de verdade, um dos dons maioresque o Senhor deixou e que continuamente confi rma à sua Igreja.

É necessário pôr-se sob tal ótica de bem, verdade e dompara compreender a realidade histórico-teológica e normativoespiritualdo celibato eclesiástico, sempre capaz de solicitar oaprofundamento e a verifi cação da qualidade da fé de cada ume, sobretudo, de pensar segundo Deus e não segundo o mundo.

A Igreja, Esposa do Senhor, não renuncia aos dons doEsposo e implora, em uma renovação contínua e autêntica, aluz e a força do Espírito, que a tornam capaz de compreender,aprofundar e viver sempre com maior fi delidade também odom do celibato.

Se é preciso falar de reforma – e pessoalmente pensoque sim, pelo menos há trinta anos – essa deve ser entendida,evidentemente, em sentido autenticamente católico. Deve, porisso, envolver toda a vida dos presbíteros, na direção de umaradical fi delidade à própria identidade, a qual, como é obvio,não é copiada nem pode se modelar sobre critérios passageirosdo mundo, mas pede para se conformar continuamente à vontade de Deus. A autêntica reforma não deve olhar unicamenteos aspectos psicoafetivos da vida do sacerdote, mas requerter coragem de partir das raízes: uma correta cristologia,uma sã eclesiologia, uma forte espiritualidade, sobretudo, umacorreta teologia sacramental e um profundo senso do sagrado,capazes de plasmar toda a vida sacerdotal, em torno daqueleimprescindível centro que é a Celebração Eucarística.

Como celebram os sacerdotes? Que sentido do sagradotransmitem? É claro o juízo sobre a necessidade absolutade Cristo para a salvação? Só respondendo a estas perguntasserá possível uma autêntica recompreensão e uma entusiasmantemotivação do sagrado celibato, o qual, prescindindode tão amplo contexto de fé genuína, poderia parecerabsolutamente incompreensível.

Por séculos – e os últimos decênios não são estranhosa tal dinâmica – não faltaram ataques ao celibato eclesiástico. É necessário reconhecer que, não raramente, esses provêm decontextos e mentalidade completamente estranhos à fé, entendidacomo doutrina ou como “práxis” e, infelizmente, sãomuitas vezes coordenados, nos tempos e nos modos por regrasnem um pouco muito ocultas, que visam ao progressivo enfraquecimento,de um dos elementos que torna mais efi caz otestemunho de Cristo: a virgindade pelo Reino dos Céus.

O celibato não é estranho à cultura contemporânea maisdo que possam parecê-lo a fi delidade conjugal ou a continênciapré-matrimonial. É necessário reconhecer que estamos diantede um dos maiores desafi os educativos da modernidade.

Depois da revolução de 1968, que prometia a libertação dohomem, mas que, na realidade, o tornou escravo dos própriosinstintos, é necessário e urgente reeducar inteiramentea esfera afetiva, reconhecendo-lhe a grandeza e a dignidade,porém, ao mesmo tempo, colocando-a naquela moldura delimites objetivos que a Teologia chama pecado original, com asconsequências que dela derivam.

A lógica que submete o celibato sacerdotal é a mesmaque podemos encontrar no matrimônio cristão: o dom total do“todo” e do “para sempre”, no amor. É a mesma dinâmica queinveste a vida do homem, reconhecendo o primado de Deuse, por consequência, também o primado de sua vontade, quelivremente chama aqueles que Ele quer.

Não em último lugar, é necessário relevar o liame entre adifi culdade em compreender o valor do celibato eclesiástico ea difusa cultura semipelagiana, para a qual o homem contemporâneo,vítima do próprio técnico-cientifi cismo, pensa poderrealizar alguma coisa de bom sem a ajuda da graça. O ingênuootimismo sobre o mundo, em certos ambientes tambémteológicos e eclesiásticos, não é estranho a tal risco e requerum profundo discernimento e um sadio espírito criticamenteconstrutivo. No curso da sua, até agora, bimilenária história,nos momentos de maior prova, crise, escândalo, a Igreja nãobaixou nunca o nível moral e espiritual, ao contrário, o mantevealto e até exaltado, sobretudo no delicadíssimo dever deescolher, educar e instituir os próprios ministros.

Bento XVI recordou aos sacerdotes, a 16 de março de2009, que “ninguém anuncia ou leva a si mesmo, mas dentroe através da própria humanidade, todo sacerdote deve estarconsciente de levar um Outro, Deus mesmo, ao mundo. Deusé a única riqueza que, em defi nitivo, os homens desejam encontrarem um sacerdote”.

O modelo sacerdotal é aquele que dá testemunho do Absoluto. A verdadeira contradição hoje não é procurar originalidadesuperfi cial, que suscita um breve e curto interesse. Os sacerdotesserão na verdade “sinais de contradição”, unicamentena medida em que, vivendo plenamente a própria identidade eespecifi cidade, se tornarão santos. Não há outro caminho!

Vejamos, por exemplo, São João Maria Vianey, São JoãoBosco, São Maximiliano Maria Kolbe, São Pio de Pietrelcina,São Josemaria Escrivá e tantos outros. Todos sacerdotes, todosmuito diversos pela personalidade humana e história pessoal,no entanto, todos extraordinariamente unidos pelo amor epelo testemunho de Cristo Senhor e por terem sido por issomesmo sinais verdadeiramente proféticos.

O fato de que, em muitos ambientes, o celibato seja hojepouco compreendido ou apreciado não deve levar a conjecturarcenários diferentes, mas pede antes esforço para uma maisatenta formação dos presbíteros sob o arco da continuidadeentre aquela inicial e a permanente, assim como uma melhorcatequese dos fi éis leigos, estando a melhor catequese essencialmentenos conteúdos. Nós, pastores, não podemos trair osjovens diminuindo as exigências, mas devemos ajudá-los nasaspirações, encorajando-os a tender para altos horizontes. Parafazer isto não podemos temer o mundo ou ser-lhe condicionadode algum modo. Devemos seguir, com audácia, o espírito deDeus, agir resolutamente como se tudo dependesse de nós, mascom a paciência e a paz interior de quem sabe que tudo dependede Deus e depondo todo esforço nas mãos da Virgem Imaculada,esplêndido ícone da fi delidade ao seu e nosso Senhor!Só posso desejar que este livro encontre a mais ampladifusão, contribuindo para tornar o celibato sacerdotal sempremais apreciado como dom precioso do Espírito de Cristo à suaIgreja e acolhido por jovens que, como São Paulo e tantos santos,deixaram-se “conquistar por Cristo” (Fl 3,12).

S. EMCIA. REVMA. CARDEAL MAURO PIACENZA
PREFEITO DA CONGREGAÇÃO PARA O CLERO